Conecte-se conosco

Turismo e Inovação

Cidades Criativas da Unesco: da ação ao título do título à ação

Descubra porquê Belo Horizonte e outras cidades brasileiras são reconhecidas, merecidamente, como cidades criativas pela Unesco.

Publicado

em

Foto: QU4RTO STUDIO/ Xapuri

Em 2004 a UNESCO criou a rede de cidades criativas, pautada em diferentes segmentos, como uma forma de valorizar, promover e fomentar os setores criativos, a interação e troca de experiências entre as cidades membros que tem em comum o fato de terem buscado na criatividade seu diferencial para planejamento, desenvolvimento e políticas públicas além de conferir às mesmas um título que contribui com posicionamento diferenciado destes territórios.

Entre os setores criativos indicados estão a música, o design, a literatura, a gastronomia, o artesanato, o cinema e as artes midiáticas.

Já falamos aqui que o debate sobre economia criativa é relativamente recente no Brasil, o mesmo quando pensamos em cidades criativas. Para entender melhor sobre o tema recomendo muito o livro Cidades Criativas – Perspectivas organizado pela Ana Carla Fonseca e Peter Kageyama, além  de outras publicações, com curadoria e/ou autoria dela que, para mim, é a maior especialista sobre o tema no Brasil e uma das maiores no mundo.

LEIA TAMBÉM: A inovação pode ser simples

Como um destino se candidata?

De forma bastante resumida, cidades que buscam ou se retratam criativas apresentam em comum três temáticas: cultura, criatividade e conexão. Cultura, para que possa olhar pra dentro e identificar seus diferenciais, oportunidades e formas de tornar-se cada vez mais um território interessante. Criatividade, de forma que inovação, melhorias, mudanças não sejam compreendidas como problemas, mas sim, oportunidades de desenvolvimento e renovação. Conexão, desde o acesso à internet de qualidade, passando pela mobilidade e pela oportunidade de geração de encontros e espaços de trocas entre os mais diversos perfis de cidadãos, com diferentes idades, locais de residência, origens, até mesmo, aqueles que não nasceram na cidade, mas a escolheram como espaço de vivência. Essa tríade poderá pender mais para um tema do que para outro, porém, o alcance do equilíbrio entre eles é um bom caminho para que uma cidade possa se destacar como uma cidade criativa.

O processo de candidatura à Rede de Cidades Criativas da Unesco ocorre a cada 2 anos, é um processo relativamente curto, em que são selecionadas, a partir da avaliação de um júri internacional, frente às cidades ao redor do mundo, que se candidatam dentro das temáticas indicadas. Cada cidade candidata apresenta um dossiê indicando as atividades, projetos, histórico, iniciativas, grupos e atores envolvidos no determinado segmento escolhido, de forma a demonstrar a relevância do setor criativo e a importância estratégica do mesmo para o desenvolvimento local, em curso. As cidades então agraciadas apresentam um plano de ação para continuidade e avanços do setor e claro, do desenvolvimento da própria cidade e, anualmente, compartilham os avanços e participam de ações junto à Unesco e as demais cidades da rede para intercâmbio e relato de resultados e experiências.

Belo Horizonte, Cidade Criativa da Gastronomia

No Brasil são 12 cidades membro, entre elas, Belo Horizonte aceita em 2019, sob o tema de gastronomia, contemplando então 4 cidades nesta temática no país. Um título que veio coroar a capital mineira, já reconhecida como a cidade dos botecos e também a cidade que tem a capacidade de sintetizar a riqueza gastronômica de toda Minas Gerais.

Síntese esta que pode ser vivenciada na variedade de bares e restaurantes, no encontro dos mais diversos produtos em mercados e feiras, na quantidade e qualidade de eventos e festivais gastronômicos que ocupam praças, ruas e avenidas, no desenvolvimento de roteiros e produtos turísticos pautados pela gastronomia, e também pelas novas formas de ocupação do território e (re)descoberta de bairros e edificações da cidade, a exemplo de avenidas como Fleming, Alberto Cintra, os bairros de Santa Teresa e Sion, chegando às edificações como o Mercado Novo, o Centro de Referência do Queijo Artesanal e outros. Além do uso de espaços para instalação de hortas urbanas, dentro de uma política de segurança alimentar reconhecida como uma das mais antigas e efetivas do país.

Oportunidades para além do óbvio

Vemos assim que a gastronomia, enquanto diretriz estratégica de desenvolvimento, tem a possibilidade de gerar oportunidades para além da cadeia produtiva a qual se vincula, envolvendo temáticas de uso do espaço público, turismo, arquitetura, segurança alimentar, mobilidade urbana, educação, entre outras.

LEIA TAMBÉM: BH e Curitiba preparam eventos com grandes nomes da gastronomia nacional e se destacam no turismo gastronômico

Exatamente por tanta transversalidade e para também seguir avançando, mais do que receber um título, é preciso continuar, e incrementar, ações que fortaleçam tal reconhecimento. Por esta razão, Belo Horizonte vem desenvolvendo uma série de atividades, fomentando o turismo gastronômico, revisitando seu posicionamento enquanto território e promovendo ações de combate à insegurança alimentar, muitas destas iniciativas, parte do plano para o contínuo reconhecimento e valorização do título de cidade criativa pela Unesco.

Bienal da Gastronomia

Dentro destas iniciativas, iniciou-se na última segunda-feira, dia 16, a Bienal da Gastronomia realizada pela Belotur, com uma programação rica e variada que traz, a oportunidade de conhecer as ofertas de Belo Horizonte, o diálogo e troca entre diversos profissionais, atores e pesquisadores envolvidos com o tema.

Foto: Divulgação

Serão dias de debate, troca, integração e interação com a participação de profissionais da capital interagindo com vários outros profissionais de outras cidades criativas também reconhecidas pela Unesco, chefs de renome internacional e, em sua primeira edição, celebra a vida e contribuição das guardiãs da gastronomia mineira, Maria Stela Libânio, Dona Lucinha e Nelsa Trombino.

Consolidação de um trabalho bem feito

A bienal se torna uma espécie de resumo, ou consolidação, de todo um movimento de posicionamento territorial pela gastronomia, que tem como marco importante a inclusão de Belo Horizonte na rede de cidades criativas da Unesco. Mas principalmente, celebra o trabalho e o olhar inovador de diversos profissionais que acreditaram e acreditam na gastronomia como vetor de transformação e de inovação para a cidade.

Assim como toda cidade criativa que se preze, a realização da Bienal da Gastronomia é uma ação, dentro de uma série de iniciativas em torno da política pública de promoção da gastronomia, que trata da cultura, visto o reconhecimento aos fazeres e atores locais, trata da criatividade, visto as diversas formas de expressão, a abertura ao novo e as oportunidades de transformação, bem como, trata da conectividade, já que serão dias em que diferentes espaços da cidade receberão atividades, os mais diversos profissionais, pesquisadores, estudantes, turistas e cidadãos poderão se encontrar e dialogar.

LEIA TAMBÉM: Turismo criativo – modismo ou tendência?

Esta iniciativa mostra que a cidade cercada por montanhas, com fortes raízes do interior, olha para a frente, para além das montanhas, vibra, inova e busca se renovar e, na comida, encontrou seu melhor cartão de visitas e no título, com o perdão do trocadilho, a nossa cereja do bolo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.