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Turismo e Inovação

Inovação é olhar para dentro?

Brasil recebe premiação durante Fitur e demonstra a importância em se valorizar as raízes ao desenvolver o turismo em um destino.

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Marcelo Freixo, Caroline Couret, Jamile Machado, Juliana Bettini e Mônica Sâmia (Foto: Renato Vaz / Embratur)

No final de janeiro aconteceu a Feria de Turismo de Madrid – Fitur, 2024, uma das principais feiras do setor que concentra, em 5 dias, profissionais de todo o mundo e potenciais turistas.

Mais do que promover encontros e gerar oportunidades de negócios, a Fitur também é uma vitrine de boas práticas, debate técnico e troca de experiências. A verdade é que dá vontade de brincar de bruxa, e, em um passe de mágica, poder ter várias cópias de si mesma, para acompanhar todas as atividades que acontecem durante o evento.

São realizadas palestras, reuniões, lançamentos, cozinhas ao vivo, premiações e tantas outras ações, além da oportunidade em conhecer muita gente e ampliar a rede de relacionamentos. Porém, gostaria de fazer um destaque especial para uma destas programações, a do stand do Brasil durante a feira, em especial, uma premiação lá realizada.

O stand do Brasil na Fitur 2024

O stand do Brasil contou com a participação de diversos destinos que promoveram atividades variadas para promoção de seus atrativos e apresentação da diversidade de experiências do Brasil. Foram apresentações culturais, cozinhas ao vivo, sorteios, entre outros. Teve café, pão de queijo, caipirinha, capoeira, frevo, forró, ou seja, muito movimento, encantamento e olhos brilhantes e ávidos por novidades.

Dentre todas estas atividades, gostaria de destacar uma delas: a entrega da premiação de Melhor Destino de Turismo Criativo ao município de Salvador. Salvador foi agraciado pelo 11º Creative Tourism Awards (11º Prêmio de Turismo Criativo), na modalidade de “Best Creative Destination” (Melhor Destino Criativo), pelo projeto Salvador Capital Afro – Plano de Desenvolvimento do Afroturismo para a capital baiana. A premiação é realizada pela Creative Tourism Network (Rede de Turismo Criativo), entidade baseada na Espanha, que tem por missão promover, fomentar e divulgar destinos, atividades e operadores de turismo criativo e foi entregue em mãos, à equipe de Salvador, durante a Fitur.  

Jamile Machado e Marcelo Freixo (Foto: Renato Vaz / Embratur)

O que é o Projeto Salvador Capital Afro?

O Projeto Salvador Capital Afro, de forma resumida, é um movimento em prol do fortalecimento da cultura afro de Salvador e que tem no afroturismo uma de suas principais expressões. A proposta reúne, na cidade que abarca a maior população afrodescendente fora da África, diversas experiências turísticas com foco na memória, cultura, expressões desta população, promovendo reconexão e o diálogo entre diversos membros da sociedade, tendo a cidade de Salvador como palco deste encontro.

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Importante destacar que, para além de fortalecer e valorizar a memória e a cultura negra, o projeto também auxilia a geração de emprego e renda a partir destes temas e valoriza cada vez mais o afroempreendedorismo ao criar duas plataformas importantes: o Afrobiz Salvador, que conecta empreendedores da economia criativa com potenciais consumidores e investidores; e o Afroestima Salvador que, através de mentorias e capacitação, apoia o desenvolvimento dos empreendedores do afroturismo na capital baiana.

Ao conhecer um pouco mais de perto a iniciativa, fica fácil entender o motivo do reconhecimento e consequente premiação. O projeto consegue associar iniciativas de formação empreendedora, com valorização cultural, reconhecimento, ganho de auto estima, e ainda atender as tendências de consumo que o cenário turístico aponta. É um exemplo que confirma a máxima de que, para um destino ser bom para o turista, tem que ser bom para o morador.

Claro que Salvador já respira turismo há décadas e claro que a maioria dos profissionais envolvidos com o tema são de origem negra, assim como é a maior parte da população do município, mas, ao colocar o afroturismo no centro das atenções, Salvador dá exemplo. Salvador mostra que para se destacar, se renovar e inovar, faz muito mais sentido olhar para dentro, para sua própria história, sua memória, seus saberes, sua gente, do que tentar absorver o que vem de fora, sem conexão local.

É exatamente isso que o turismo criativo estabelece: a oportunidade do turista desenvolver sua criatividade a partir de atividades locais, em que seu envolvimento e troca com pessoas da comunidade farão muito mais sentido e produzirão uma experiência única. 

Turismo criativo no Brasil

No Brasil já vimos identificando iniciativas em torno do turismo criativo desde o início dos anos 2000, quando, o então Ministério do Turismo criou uma área na instituição para tratar da Produção Associada ao Turismo, no meu entendimento, o embrião do que hoje chamamos de Turismo Criativo e Turismo de Experiência, que possuem aí suas diferenças apesar de muitas vezes serem tratados por sinônimos.

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O tema já foi destaque em políticas públicas na cidade de Porto Alegre, Brasília e mais recentemente em Recife, base da Recria – Rede Nacional de Experiências de Turismo Criativo, instituição que também foi agraciada com a premiação da Creative Tourism Network, na modalidade de melhor estratégia de desenvolvimento do turismo criativo. Em paralelo, o tema também ganha força junto às cidades brasileiras que fazem parte da Rede de Cidades Criativas da Unesco, seja pela música, gastronomia, artesanato, entre outros, visto que, uma das melhores formas de reforçar o vínculo a determinado setor criativo, é a possibilidade de experimentá-lo.

Assim, iniciativas diversas em torno do turismo criativo, que por vezes se mesclam às ofertas de turismo de base comunitária, do afroturismo, encontram hoje um terreno bastante propício ao seu desenvolvimento, contam com uma ferramenta própria de promoção e divulgação, o CAE, cadastro nacional de experiências turísticas da Embratur, que atende uma demanda crescente por parte dos turistas que buscam cada vez mais a oportunidade de vivenciar experiências nos destinos que escolhem visitar.

A importância de olhar para dentro do destino

Estamos em um momento de aquecimento da atividade turística, onde vários recordes estão sendo alcançados, desde aumento do número de turistas internacionais, passando pelo aumento de arrecadação e geração de postos de trabalho. Porém, apesar de dados e leituras na esfera global, não podemos nos furtar a observar de forma local. Não é à toa que premiações e reconhecimentos acontecem, em geral, em nível municipal pois é onde de fato as atividades tomam forma. É na localidade que o turista interage, vivencia e tem a oportunidade de conhecer uma realidade diferente da sua.

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É neste sentido que segue o convite para que tenhamos: turismólogos, empreendedores, gestores e turistas, um olhar mais cuidadoso e atencioso para os municípios turísticos. Olhar que permita a constante renovação da oferta, a qualificação de mão de obra, a segurança para empreender, de maneira que o olhar técnico e estratégico esteja presente para qualquer decisão tomada para o setor e que garanta, entre outras coisas, o crescimento constante de iniciativas como o Projeto Salvador Capital Afro, os projetos da Recria, os projetos das cidades criativas como um todo. Garanta também que tais iniciativas não caiam em esquecimento ou sofram intervenções danosas, e o país possa seguir com a crescente articulação e promoção da oferta do turismo criativo como um oportunidade para a inovação e renovação dos mais distintos perfis de destinos turísticos brasileiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.