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Turismo e Gastronomia

E pra comer? O que a América Latina tem?

Música Brasileira foi onde a gastronomia pode chegar, o prêmio do 50 Melhores Restaurantes do Mundo mostra isso.

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Foto: Thiago Paes

Na música de Dorival Caymmi eternizada na voz de Carmen Miranda, cada estrofe faz uma simples pergunta sobre uma portuguesa que se “abaianou” para falar do Brasil no estrangeiro. Repetidas vezes pergunta: “o que a baiana tem?” Na resposta, um dos mais lúdicos e parnasianos retratos da brasilidade para gringo ver: batas rendadas, pulseiras de couro, sandália enfeitada, saia engomada.

Ainda na música, a canção de Dominguinhos, Osvaldinho do Acordeon e Sivuca, ecoou para os quatro cantos do mundo o que seria a tal “Feira de Mangaio”. Universalizando sabores tão regionais de forma tão simples para que qualquer europeu ou asiático pudesse entender. Na voz de Clara Nunes, a Feira de Mangaio ganhou o mundo. E todos puderam ao menos imaginar o que seria “broa de milho e cocada”, que ali tinha “pra” vender – quem quer comprar? Ou ainda “pé-de-moleque, alecrim, canela”, e por que não “tomar uma bicada com lambu assado e olhar pra Maria do Joá”?

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Retratos do Brasil brasileiro, dos mais inusitados lugares do país. É se diferenciando que a gente se compara. É olhando para dentro que a gente se encontra diferente.

Moqueca de frutos do mangue – prato feito com frutos de um dos maiores manguezais do Brasil no Delta do Parnaíba entre Piauí e Maranhão (Foto: Thiago Paes)

Letras de músicas brasileiras, mas poderiam ser cubanas, bolivianas, peruanas, argentinas, chilenas, como vem fazendo a gastronomia latino-americana nos principais prêmios do mundo. Escrevendo uma nova história.

O 1º da “50 best”

A recente lista do “50 best” que indica os 100 melhores restaurantes do mundo e que colocou o peruano “Central” em primeiríssimo lugar diz muito sobre esse olhar para dentro que todos nós latino-americanos deveríamos ter.

É claro que independente de qualquer comparação, o restaurante Central e a culinária peruana estão de parabéns. Mas não podemos deixar de observar que o trabalho desenvolvido na cozinha desse restaurante é também um resgate da própria cultura culinária local. Um país com mais de 3 mil tipos de batatas, coberto por mais de 70% de seu território pela floresta Amazônica, que possui pesca, vida selvagem, montanhas e mistérios como o Machu Picchu, tem muito o que dizer ao mundo.

Café da manhã feito com produtos regionais na Villa Rica Pousada Boutique em Brumadinho/ MG. Cuscuz e Tapioca são bases da histórica culinária brasileira (Foto: Thiago Paes)

No menu do Central, o cliente é levado do mar ao pico das montanhas, por sabores singulares, mas que são compreendidos como uma expressão cultural da própria trajetória do país. É uma comida que fala. Um exemplo a ser seguido.

Se permita “descobrir” a América Latina

O Brasil e os demais países da América Latina estão no caminho dessas descobertas. E nem falo pelos renomados chefes de cozinha que têm feito um trabalho incansável de resgate da própria identidade culinária. Mas a comida é expressão do desejo de um povo. Um ato político, de quem come. E uma escolha política, de quem tem o poder de dar o que comer.

Risoto de camarão com pequi na vinícola Assunção em Goiás – onde estão sendo produzidos os primeiros vinhos do Cerrado (Foto: Thiago Paes)

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Se eu puder, humildemente, contribuir com a resposta da pergunta que permeia essa retórica gastronômica (e musical) de hoje, eu diria que a Latino América deveria conhecer e comer a América Latina. E que nós, latino-americanos comamos as sementes, os caldos, as raízes que semeamos por aqui.

Como diria Djavan, parafraseando Caetano e sua Tropicália: “noutro plano, te devoraria tal Caetano a Leonardo Di Caprio”. O prato é a nosso gosto, e não mais para inglês ver. É o que tem no menu de hoje! Pense nisso!

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